domingo, março 26, 2006

me passa a manteiga?

- Me passa a manteiga?

Ele sabia que aquele não era um simples pedido de uma gentileza. Era o início de mais uma daquelas longas discussões de relacionamento que ele simplesmente odiava ter.

- Sabe, acho que a gente deveria comprar menos manteiga e mais margarina light. Manteiga não é bom, meu médico disse que...

Era sempre assim nos últimos sete anos. Desde que casaram e enquanto os filhos teimavam em não vir era uma disputa por interesses e gostos. Ele, como todo homem, primava por sua masculinidade e comprava tudo que é de mais gorduroso e não-saudável para contrastar com seus hábitos testosteronísticos, como ir à academia todos os dias pela manhã e jogar futebol com os amigos no clube aos sábados. Ela, da mesma forma, cuidando de sua vida feminina, tentando manter sua atratividade e suas curvas, visitando sempre seu médico nutricionista e uma analista para se manter sempre motivada para o trabalho.

- Mas manteiga é bem melhor, nem vem com essa. A gente pode muito bem comprar os dois na próxima vez que formos ao supermercado.

Suas tentativas de conciliação eram inúteis. Realmente a irritava o fato de não dar a mínima para o que ela sentia, o que ela queria. A queixa ali não era simplesmente que ela gostava mais de margarina, mas sim que ela queria que ele ficasse mais com ela, para entender as vantagens de se ter margarina em casa. Em outras palavras, ela sentia a falta dele no cotidiano. Durante a semana, sua rotina era passar o dia no escritório de contabilidade que fundou há alguns anos com uma colega da faculdade, depois ir à academia para as aulas de step e alongamento em um horário que ele não estava lá e chegar em casa exausta, pronta para deitar e dormir. Nos fins de semana, ele ia jogar bola aos sábados e acabava ficando o dia todo. No domingo, dia que teoricamente seria para que ficassem juntos, era na verdade só metade, porque a maldita Globo teimava em passar os jogos do São Paulo no meio da tarde.

- Ah, e dinheiro cai do céu, né? Eu acho que você deveria ir comigo ao nutricionista, sabe, ele iria --
- Ah, e você tá maluca, né? Eu faço exercícios, eu jogo futebol! Eu sei me cuidar e por isso me dou o luxo de comer minha manteiga todo dia de manhã! Ora!

Começou. Era o estopim para mais uma briga daquelas. A roupa suja que não tinha sido lavada na última semana encontrou sua brecha para aparecer e espalhar seu aroma por toda a cozinha.

- E eu acho pouco! Sabe, eu li esses dias numa revista que dizia que mesmo os mais atléticos sofrem do coração, sabia? Você devia passar mais tempo em casa pra saber dessas coisas!

A rotina dele também não era fácil. De manhã, acordava bem cedo para comparecer à academia, onde fazia musculação e natação. De lá, seguia para seu trabalho, em uma agência de publicidade, onde passava o dia atendendo clientes que exigiam cada vez mais da sua capacidade criativa para aumentar em 0,01% o faturamento anual, tudo para impressionar os acionistas. À noite, quando seguia para casa, pegava o maior engarrafamento do mundo, deixando seu dia ainda mais curto.

- Mais tempo em casa? Só se eu comprar um helicóptero! Tem noção do tamanho do problema que é o trânsito nessa cidade?
- Pois saia mais cedo!
- Ah, pra você é tudo tão fácil!
- É, e pra você nada é possível!
- Pois bem, deixa eu ir que estou atrasado!
- Eu também! E pensa no que eu te falei. Um pouco de margarina light na sua dieta não vai te fazer mal.
- Tá, vou pensar.

Seguiram para suas rotinas. Nem mesmo a briga no café da manhã de uma belíssima segunda feira (se é que o adjetivo belo pode ser dado a dia tão fatídico) fez com que as coisas ficassem menos difíceis. Ganhavam bem, é verdade, mas para quê? Essa era a questão que permanecia sem resposta tanto nos pensamentos dela, quanto nos dele.

A noite chegou e se encontraram novamente na mesa do jantar. O silêncio mortal só foi quebrado no final da refeição, quando ela toma a iniciativa:

- Querido, precisamos terminar nossa conversa.
- Que conversa?
- A do café da manhã.
- A da margarina? Olha, tá bom, eu troco a manteiga pela margarina light. Era isso que você queria?
- Não! Não era!
- E o que era, então?
- Ah, você não entende. Vou dormir.
- ...

Mais uma vez ela se questionava se merecia aquilo, se algo não havia sido feito de errado no começo da vida conjugal. Será mesmo que ele é tão desligado dela pra não perceber que ela simplesmente sentia a sua falta? Não é possível. Algo deve estar acontecendo, pensava ela. Ela colocou como meta descobrir o que havia de errado entre eles. E resolveu iniciar sua pesquisa ali, mesmo, na cama, de madrugada.

- Bem? Benhê?
- Humm..
- Tá acordado?
- Ahn... eu?
- É, tá acordado?
- Quase... fala...
- Tá acontecendo alguma coisa? Eu to me sentindo mal...
- Não é culpa do suco?
- Que suco?
- O suco... suco de laranja causa essas coisas...
- Ah, volta a dormir...
- É... sucos cítricos... zzz...

Ela estava decidida a descobrir a falha que havia no casamento. E não iria desistir tão fácil. Havia meses que não sabiam o que era sexo e as conversas já não fluíam como antigamente. No outro dia, a história se repetiu.

- Me passa a manteiga?
- Ihh, de novo?
- Como assim de novo? Só porque eu pedi a manteiga?
- Não vamos começar, por favor. Espera um minuto.

Ele se levantou, foi até a geladeira e pegou um pote de margarina light ainda fechado que ele havia comprado na noite anterior. Ela, apesar de surpresa, não registrou em seu semblante nenhum sinal de alteração.

- Olha só o que eu trouxe. Não deve ser assim tão ruim.

Ele olhou a embalagem como quem analisa um rótulo de um vinho antes da degustação. Leu "Margarina light sem sal". Metodicamente, abriu a embalagem, pegou a faca ainda suja de manteiga e limpou com um guardanapo. Passou duas camadas de margarina light em sua bolacha água-e-sal e mordeu com vontade. Definitivamente, não era aquilo que ele esperava. Ao contrário dela, ele não conseguia disfarçar sentimentos com tamanha destreza e deixou escapar uma careta ao mastigar o pedaço de bolacha com margarina light. Analisou novamente a embalagem para certificar-se do que estava ingerindo. Não pôde evitar o comentário irônico da esposa.

- Gostoso, né? Que bom que tenha gostado. Já avisei no supermercado pra só entregar Margarina Light a partir da próxima compra.
- Que bom, querida. Acho que ainda melhor que margarina light é comer a bolacha pura, não acha?
- Não senhor. A margarina tem ômega 3, ótimo pra controlar o colesterol!
- Aaaah é, é? Humm... deve ser esse o segredo do sabor.

Naquele dia, ela foi trabalhar um pouco mais feliz do que de costume nos últimos anos. O ocorrido no café da manhã tinha provado que ele ainda estava disposto a ceder e a realizar sacrifícios por ela. Desistiu da idéia de que algo estava errado e investiu na idéia de fazer uma surpresa.

Naquela noite, após o expediente do casal, a mesa de jantar estava preparada de uma maneira especial. Espaguete, luz de velas, vinho, música ambiente... tudo o que há tempos tinha sido esquecido, naquela noite voltou à lembrança. Os tempos de flerte, o namoro, as brigas, as reconciliações... "E aí dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou. E foi tanta felícidade que toda a cidade enfim se iluminou. E foram tantos beijos loucos, Tantos gritos roucos como não se ouvia mais. Que todo mundo compreendeu, E o dia amanheceu em paz"

E o dia amanheceu em paz. Repleto de latas de manteiga extra pra comemorar a noite que há muito tempo não tinham. E as rotinas? As rotinas continuaram as mesmas.

Um comentário:

Yuri Machado disse...

muito muito legal. vou repetir o que te disse no msn, que é para ficar escrito:

engraçado sem ser estúpido
inteligente sem ser chato
dialogos deliciosos, uma sensibilidade enorme nos detalhes, um ótimo encadeamento de fatos, enfim,

um texto que na verdade é um roteiro de teatro enrustido, com um pouquinho de mario costa, que sua vez tem um pouquinho admitido de nelson rodrigues.

parabéns!

esse é um texto que eu vou indicar,

e espero aprender com a sua fluência.