sábado, março 25, 2006

O atraso, o encontro e tudo o mais.

Talvez naquele dia não tivesse saído (caso seu pé não pé permitisse, visto que fazia uma semana que tirou o gesso). Mas logo viu que o destino, às vezes, nos prepara armadilhas que, se bem aproveitadas, podem se tornar agradabilíssimas surpresas.

Saiu aquele dia como se estivesse seguindo para o pelourinho no dia da consumação de sua pena de morte. Tomou seu café da manhã: bisnaguinhas, geléia de uva, achocolatado em caixinha e algumas bolachas de maizena. Saiu cinco minutos mais tarde que o costume, mas nada que o próximo ônibus não consertasse. Do descuido, o castigo de um coletivo ao pé-da-letra, om gente atolada e brigando por um espaço onde segurar para não cair nas freadas do apressado motorista. Porém, para sua sorte, encontra ali sentado, numa boa, um velho amigo da época do colégio (nossa, já se foram 10 anos!), com quem uma vez tivera um pequeno flerte, mas nada concretizado. Enfim, este amigo lhe cedeu o lugar (não que fosse um ótimo lugar, mas ao menos não teria de ficar uma hora inteira de pé à espreita de que alguma boa alma visse seu ponto chegando e liberasse aquele tão cobiçado assento). E aí, como vai você? Vou bem, obrigado, sabe como é, idade... Sim, eu sei. Mas e aí, o que tem feito? Saí da faculdade, não sei o que fazer agora, Que coincidência, nem eu! E para onde vai? Trabalhar... banco. É? eu também, qual banco? Puxa, trabalhamos no mesmo lugar!

O leitor já provavelmente imagina o desfecho desse pequeno causo aqui contado, mas peço encarecidamente que continue a ler, pois mesmo os fatos mais previsíveis ainda possuem sua beleza. E acredito que gostaria de saber como foi, não?

Esse reencontro reacendeu em seus corações o velho flerte que tiveram no colegial que acabou por não se concretizar por um caprichoso acaso do destino.
Era a festa de formatura. Eles tinham certeza que ali seria o momento, os olhares, os movimentos, tudo indicava que ali, finalmente, saria a consumação da vontade de ambos duranto os três longos anos do colegial. Seria a última chance de algo acontecer. Quando a tão sonhada hora chegou, no meio da derradeira conversa, um amigo dele o puxou, afirmando que alguém estava mal e que teria que ser levado ao hospital o quanto antes. O beijo ficou estampado nos lábios dela, da mesma forma como ficou nos dele, sem, no entanto, alcançarem seu objetivo maior: o encontro.

Voltando à realidade atual, os dois finalmente se reencontraram e perceberam que aquele beijo até há pouco dado como perdido (seguindo a lógica de que ´foda adiada é foda perdida`, mas num contexto mais bonitinho), ressurgia desenhado como dois corações em seus lábios, alterando o ritmo cardíaco e fazendo com que a cabeça funcionasse a mil. Não seria ainda ali. Não estavam num lugar propício. Toda aquela gente, todo aquele clima de ´ônibus lotado`, o que de fato era, os fez desistir daquela idéia imediatamente. Então, vamos tomar um chopp depois do expediente? Claro! Onde? Pode ser ali na lanchonete vizinha mesmo! Combinado!

Aquele dia não passava para o pré-conceituado casal recém-redescoberto. Ele não conseguia se concentrar no que fazia, tampouco ela. nenhum dos dois jamais esperaria que isso um dia poderia ocorrer, a cabeça não trabalhava, o corpo não respondia... até que, por outro acaso, encontraram-se no elevador rumo ao refeitório. Ainda não seria ali, mas na cabeça de ambos, duas coincidências num só dia não poderia ser mera obra do acaso. Nunca antes haviam sequer visto um ao outro ali. Era algo muito forte para que fosse.

E lá se foram outras longas quatro horas até o fim do expediente para que pudessem finalmente se encontrar. O que aconteceu nesse meio tempo é mero detalhe, além de não ser o foco desse relato. Portanto, o melhor a fazer nesse momento é acelerar um pouco o relógio para que este que vos escreve não seja obrigado a descrever cada movimento burocrático que um serviço bancário exige. Voltemos à personagem principal dessa historieta.

Ela ficou pensando se isso tudo ocorreria se sua vontade de ficar na cama prevalecesse por completo (afinal, saíra cinco minutos mais tarde por conta disso). Chegou à conclusão de que sim, aconteceria. De todo modo, aquilo fora obra do destino. Se não fosse no ônibus, o reencontro seria no elevador ou no refeitório. Em algum lugar está escrito que se encontrariam naquele dia. E assim seria, quaisquer fossem as circunstâncias.

Enfim se encontravam naquela lanchonete, nunca antes freqüentada por nenhum dos dois. Não sabiam como se comportar, membros da diretoria do banco costumavam fazer suas happy-hours lá. E lá estavam eles, dois integrantes da camada operacinal mais baixa do banco, improvisando maneiras para parecerem algo mais perante aquela pessoa que demorou tanto a reaparecer.

Histórias da épica época do colégio surgiam, comentários e piadas a respeito de professores, viagens, até que o assunto chegou na festa de formatura. O que aconteceu? Um amigão meu estava passando mal, tivemos que levá-lo ao hospital. Tem problema com álcool e é assim até hoje. Ah, achei que tivesse... O que? Nada... Não, diga... Achei que estivesse me esnobando, fugindo daquele jeito de mim. Porque não me procurou depois? Ah, não sei se ficaria bem... Não se preocupe. Estamos juntos agora. E a hora esperada finalmente chegava. E pela segunda vez. nada os faria interromper aquele momento. Aquele beijo que se desenhava em seus lábios dez anos antes finalmente pôde atingir seu objetivo: o encontro. Aquele momento foi o divisor de águas na vida daqueles velhos conhecidos.

Naquele dia, voltou para casa em um ônibus completamente vazio. Ninguém mais importava naquele momento, é como se não existissem.

Era a garota (sim, garota!) mais feliz do mundo. Estava apaixonada. E isso ninguém podia mudar.

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