quarta-feira, abril 18, 2007

A cobaia

Certas coisas acontecem sem a gente saber o porque e como a gente pode fazer pra contornar a situação.

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Havia um garoto que tinha uma cobaia. Cobaia é um dos muitos nomes dados popularmente ao porquinho-da-índia. Esse garoto tinha uma certa semelhança com o menino citado por Manuel Bandeira em Libertinagem. Seu porquinho-da-índia era muito importante.

O garoto e a cobaia eram inseparáveis. Onde um ia, o outro seguia. Era uma relação que causava muito prazer a ambos. Com a cobaia sempre a tiracolo, o menino brincava, jogava bola, dormia, enfim, vivia.

A cobaia um dia sumiu. Nesse dia, ele acordou e a cobaia não estava mais lá. Como o garotinho chorou. Pensou que ela havia morrido. Ou então que havia fugido por não gostar mais dele.

O tempo foi passando e a lembrança da cobaia não se esvaía. Principalmente porque cada dia o garoto encontrava um rastro da presença do seu porquinho. Um pouco de pelos aqui, um pouco de ração mastigada acolá, um brinquedo jogado... O porquinho-da-índia parecia querer brincar de esconde-esconde.

Certo dia, cerca de um mês depois do sumiço, a cobaia reapareceu. Veio correndo ao colo do garoto. Ele ficou extasiado. Abraçou tanto a cobaia que quase a esmagou em seus braços. Pulou tanto com ela no colo que quase a matou de enjôo. Correu tanto e queria fazer tantas coisas que a cobaia se cansava facilmente e ia dormir, sem nem ao menos dar boa-noite.

A cobaia já não era a mesma. Não brincava como antigamente. Não ficava no ombro do garoto como antes costumava fazer. Não parecia estar feliz.

O garoto, então, vê que seu bichinho de estimação estava estranho. Resolve que vai soltá-lo na natureza, de modo que ele possa viver livre, em seu habitat natural.

A cobaia, já acostumada à vida com o garotinho, completamente inapta a voltar a habitar o ambiente selvagem, não se adaptaria novamente à nova vida. Ela morreria em pouco tempo, por falta de experiência e proteção. Seria alvo fácil para os predadores. Não demoraria até virar comida de uma cobra ou de alguma outra ave de rapina.

O garotinho não sabe disso. E acha que está fazendo o melhor para seu bichinho ao soltá-lo na natureza. Sofre, chora, se desespera. Mas está certo que é a melhor opção para ambos que seja assim.

O garotinho ama a cobaia como ama um filho o seu pai. A cobaia ama e precisa do garoto como precisa uma criança recém-nascida de sua mãe. No entanto, o que nenhum dos dois conseguem ver é que o que eles precisam realmente é um do outro.

O garoto vai reaprender a viver normalmente com a cobaia. E a cobaia vai reaprender a andar sempre no ombro do garotinho, participando de tudo na vida dele. Mas isso leva tempo.

E quem se arriscaria a deixar a cobaia morrer?

Um comentário:

Marina disse...

engraçado.... tem tantos coments de uma marina, e eu não me lembro de ter escrito nada por aqui.... pois é... existem muitas marinas por ai, pelo mundo a fora. Mas essa que tá escrevendo agora é a única, é a sua Marina... aquela, que vc ama, e que te ama tb. A única!
Volta, vai?!?!