quinta-feira, outubro 09, 2008

é aquele rapaz

Por trás da calma e paciência de alguém pode estar reprimido um
sentimento de angústia e desolamento que são por vezes externados em
situações nem tanto propícias. Talvez por isso nosso colega não consegue
mostrar seus sentimentos de uma forma sincera. Talvez por isso nosso
colega sinta que não tem os devidos sentimentos que pensa que deveria
ter. Talvez seja por essa razão que nosso colega nunca chora (em
público). Ele fica ali, isolado, em seu mundo, fechado em sua bolha
sentimental à qual não dá acesso a rigorosamente ninguém. Ele está bem
assim, não quer ser incomodado. Nada lhe atinge de fora, nada lhe causa
temor, nada lhe causa fervor. Está fechado a sentimentos naturais, a
euforias coletivas, a transes psíquicos não causados por substâncias
perturbadoras do sistema nervoso central. Sente-se só, sem apoio, sem
carinho. Por mais que as evidências exteriores mostrem o contrário, como
disse, o exterior é isolado do interior dessa bolha, que mantém-se fria,
imóvel, imutável, imune. Ele quer sair, mas no fundo quer mais ficar
ali. É cômodo não ser incomodado. É dentro dessa bolha que ele vê a vida
passar, que ele não vê o efeito do tempo, que ele sente sua incompletez,
que ele não sente do jeito como gostaria de sentir.

Sente-se ali, vazio e completo por sua angústia. Passa os dias ausente,
apesar de presente em corpo. Diverte-se, mas não como deveria. Sorri,
chora, ama, mas não da maneira como gostaria. A intensidade acabou para
esse rapaz. A externalização de sentimentos uma vez tão bem
protagonizada por ele próprio parece que tomou seu rumo em direção a um
lugar inatingível por sua mente e alma. Por vezes, no entanto, ela volta
em uma extrema intensidade, causando contratempos que em situações
normais a aparente calma reinaria soberana. A explosão repentina de
sentimentos reprimidos leva a dor aonde deveria haver compaixão; o
sofrimento aonde deveria haver paciência; desprezo aonde deveria haver
amor. E, em um instante, passa. Volta-se ao seu próprio mundo,
tornando-se novamente aquela pessoa calma, paciente, compassiva.
Novamente os sentimentos iniciam sua sedimentação no interior da bolha,
recriada dessa vez ainda mais forte, para um dia, novamente, uma
avalanche de maus agouros ser disparada contra seus arredores, atingindo
pessoas queridas e outras nem tão queridas da mesma maneira.

Falta-lhe apoio. De todas as partes, falta-lhe apoio, atenção... e
algumas palavras de conforto. Não pode reclamar da vida, mas o contrário
pode ocorrer. Falta-lhe coragem para encará-la com personalidade.
Falta-lhe empenho. Talvez falte motivação. Falta-lhe aquilo que não deve
faltar nunca: alegria. Desistiu de buscá-la por seus próprios meios,
perdeu a melhor oportunidade para tal. Ainda existe um lampejo de
esperança que as coisas mudem, mas a determinação já não é a mesma de
quatro ou cinco anos atrás. Sente que não será tarefa fácil vencer seu
próprio medo e deixar completamente a bolha, para sempre. Mas, por
vezes, sua vontade de sair de lá extrapola todo o resto e comete algumas
loucuras. É nisso que baseia sua esperança. É isso que pode salvá-lo da
bolha. É aí que reside a esperança, a determinação e a intensidade do
viver deste rapaz. E é aí que ele trabalhará pelo resto de sua existência!

(05/07/2006)

Nenhum comentário: