segunda-feira, fevereiro 02, 2009

E o retorno do investimento no amor?

Passou esse verão, outros passarão, eu passo.

Não era a primeira vez que desentendimentos como esses aconteciam. As brigas vão e vem, como ondas sonoras de uma sinfonia perfeitamente afinada. Mas dessa vez a coisa estava um pouco mais feia do que normalmente.

- Não acredito que você fez isso comigo. Não esperava isso de você.
- Não fiz nada de errado, você é que fica aumentando as pequenas coisas, fica guardando, e depois explode dessa forma!
- Você pensa que eu não vi? Pensa que eu não sei o que você estava fazendo? Pensa que eu sou boba?
- Não é isso! Definitivamente, não é isso!

A afinação estava em tom menor, a tensão era perceptível até pelo cheiro. O cristal parecia quebrado e não era hora de perguntar se aquele tubo de super-bonder ainda estava na geladeira…

- Aquela cena toda da margarina light foi tudo armado, né? Eu devia saber.
- Que tudo armado??? Como você pode falar uma coisa dessas?? E como você vai colocar uma coisa que já aconteceu há tanto tempo nessa discussão?? Eu não fiz nada de errado!! Quantas vezes vou ter que falar??
- Pra mim, basta uma. Não acredito em você, mais. O que eu vi não lhe dá mais créditos. Vou pra casa da minha mãe! E já contei até três!

Não havia como voltar atrás no erro. Ele sabia que não tinha sido assim tão grave, mas como convencê-la de sua percepção divergente? As razões dos nossos sentimentos nunca serão elucidadas pelo simples fato de que cada sentimento tem uma razão própria. Não são reprodutíveis em laboratório, tampouco podem ser mitigadas por algum composto ou substância neuro-ativa. O sentimento ali era raiva. E ela foi pra casa da mãe com a promessa de não voltar.

- Já peguei o cartão do meu advogado, ele vai entrar em contato para o nosso divórcio!
- Divórcio? Você está louca?? Como você joga tudo fora por causa disso? Olha, você tá se precipitando, hein?
- Precipitando uma ova! O que você fez, cara, não tem volta. E não adianta dizer que não fez, eu vi!!
- Meu deus, como eu vou fazer você entender que eu não tive a intenção de te magoar??
- Não teve a intenção, mas conseguiu. Meus parabéns. Adeus, até o tribunal!

É verdade que as coisas não iam lá muito bem há tempos. Apesar da proximidade física, eles estavam muito distantes um do outro, alguns diriam que milhares de quilômetros. Toda a rotina, que permanece a mesma há anos, a escassez de momentos mágicos, a paixão que já dava sinais de que a brasa não estava mais com tanta força… Tudo conspirava a favor de um tropeço de quaisquer dos lados. E, infelizmente, para ele, foi do lado dele. O erro em si não importa, já que para discutí-lo teríamos que tomar partido. O que realmente importa é que ele aconteceu. E, por ser fato consumado, não há como negar ou disfarçar as conseqüências.

As coisas caminhavam para um melancólico fim. Toda a história do casamento, as viagens, os planos de aposentadoria, o filho que teimava em não vir… tudo isso estava a caminho do baú sem misericórdia das memórias longínquas. E seria isso justo? Talvez não haja conceito de justiça quando se trata do amor a longo prazo. O que há, de fato, é o conceito de investimento pessoal na própria felicidade. O que, como todo investimento, envolve riscos e envolve custos de oportunidade – aquele custo de abrir mão de algo em favor de outra coisa. E qual teria sido o tamanho do prejuízo dessa aplicação?

A equação é complicada. Não é fácil administrar esses ativos, são muito difíceis de dimensionar. O cálculo da depreciação é inconstante, ano cresce, ano diminui… O valor de mercado do amor é tão instável quanto o barril de petróleo. Qual teria sido o preço pago? E qual o atual valor de revenda? Há mercado para isso? Será que eu devo realizar agora o prejuízo ou esperar os papéis subirem de novo pra conseguir recuperar o investimento? Será que estão perdendo há tanto tempo assim e não acordaram antes?

Mas que visão mais chata do amor, essa! Na cabeça dos dois os cálculos matemáticos deixaram de fazer sentido. A razão, nesse ponto, passou a dar lugar à emoção, aos instintos, àquilo que a gente sente. E, ainda que com muitas dúvidas a respeito do futuro desse investimento, passaram a perceber que erros acontecem dos dois lados. Outras vezes o erro foi do lado feminino, dessa vez foi do lado masculino.

O erro tinha sido grave. Mas não necessariamente o erro dele. O mais grave erro foi o erro coletivo, aquele que cometeram ao esquecer o amor e substituí-lo por colas artificiais que surgiram dos desdobramentos do relacionamento. Família, amigos, programas, lugares… Tudo aquilo que cria expectativa sobre duas pessoas há tanto tempo juntas.

Ela não ligou para o advogado. Mas as coisas não voltariam a ser como antes.

- Voltei. Não posso ficar sem você.
- Fico aliviado, mesmo. Sei que errei, mas sei também que o erro não….
- Shh… não fale mais nisso. Estou de volta, ficou pra trás, tá no passado. Nova vida daqui pra frente, tá? Exagerei, mesmo.
- Me dá um abraço.

Não se pode dizer que é um final feliz. Tampouco que é trágico. Talvez por não ser um fim, mas sim um contínuo de duas vidas que nos últimos anos seguem caminhos entrelaçados. Muitos pontos de convergência causam também muitos pontos de divergência. Seguem assim suas vidas, de onda em onda, não sabendo onde irão chegar, nem por onde irão caminhar.

A valsinha tocando no som da sala ameniza os ânimos exaltados e traz à tona a lembrança de um passado que parecia ter um futuro melhor pela frente. Por que não abraçar de novo esse futuro?

O futuro é algo inventado, não é? Então vamos inventar o nosso e ver no que dá.

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