sexta-feira, janeiro 22, 2010

Nosso propósito é simplesmente existir

Admito que toquei aqui em um assunto deveras complicado e polêmico, que envolve fé - o que por si só já o torna algo extremamente difícil.

Senti-me envaidecido com minhas idéias sendo rebatidas pelos leitores. Isso valoriza a discussão e tudo aquilo que está envolvido, como por exemplo as nossas opiniões.

Cada um tem o direito de acreditar e viver de acordo com preceitos e valores que bem entende. Podemos concordar ou discordar em parte ou inteiramente um do outro. Como foi dito no comentário do outro post, assim é a vida. Assim é a vida justamente porque temos essa capacidade de ter opiniões e discutí-las.

Realmente não acredito que haja um propósito para a nossa vida. Acredito na hipótese de que a vida é um fenômeno natural, próprio de ambientes como o nosso, rico em átomos aptos a formar cadeias (como Carbono, no nosso caso, ou Silício) e, com isso, química orgânica, com um ambiente líquido (no nosso caso, água), e rico em energia.

Isso não reduz a importância da vida. Ao meu ver, é justo o contrário: engrandece. Estarmos aqui discutindo como seres frutos do acaso, da energia que fez vida a partir de compostos que caminham contra a tendência da própria entropia, que evoluiu em direção à complexidade que experimentamos hoje... é, pra mim, fascinante.

E essa falta de propósito não significa que não devemos ter valores e princípios. Vivemos em sociedade, escolhemos nos primórdios de nossa espécie viver assim. Dentro dessa sociedade, desse "mundo" que criamos, temos sim propósito. Mas o propósito é criado por nós mesmos. Não é algo "dado", sobrenatural.

É tudo perfeitamente natural, tudo seguindo regras da física, como qualquer outro fenômeno do universo. Obviamente não conhecemos todas as regras que regem todos os espaços do nosso universo, mas nossas pesquisas caminham nesse sentido. A cada nova descoberta, as teorias vão sendo aprimoradas. Algumas caem por terra, outras são criadas para suprir as novas necessidades.

Um ensaio recente de Pascal Boyer afirma que a religião é fruto da evolução humana. Na linha do que foi dito, o sobrenatural foi inventado pelo Homo sapiens ao longo da nossa evolução. Isso foi extremamente importante quando precisávamos nos esconder de predadores, nos manter unidos sob pena de sermos devorados. Hoje, ainda mantemos esses genes. É natural o sujeito ter uma religião, ter fé e crer em coisas sobrenaturais, mas nosso outro atributo, a capacidade de utilizar a razão e ponderar fatos e explicações, nos mostra que o sobrenatural não passa disso: crença.

Não condeno os religiosos. Não condeno a fé, a necessidade que muitos têm de buscar conforto e/ou sentido para a própria vida nas páginas de algum livro milenar escrito por autores que não se conheceram contando histórias de guerra, sexo e morte. Só acho que uma crença cega de que esses livros contém toda a verdade, tudo aquilo que alguém deva saber na vida, é uma crença que limita o sujeito. E, limitado, esse sujeito irá querer limitar os que estão ao seu redor da mesma forma.

De toda forma, o sobrenatural é inventado. Como eu disse, não há propósito “dado” para nossa vida. O propósito somos nós quem nos damos. E o meu propósito é fazer de tudo para ser justo. Meu propósito é procurar mostrar a todos à minha volta o quanto nossa vida é maravilhosa, sem a necessidade de apelar para o sobrenatural. O simples fato de estarmos vivos, pensando, nos movimentando, falando, tendo relações, já é digno de adoração. Não precisamos do sobrenatural.

Como disse no título desse post, nosso propósito aqui é simplesmente existir. O resto é cultural.

Um comentário:

Lucci disse...

Gosto de ver que seus textos estão evoluindo! Falo da qualidade da escrita, pois os assuntos vc sempre soube argumentar bem.
Continue assim.
Em relação ao assunto desse texto, concordo, e não saberia expressar de forma tão clara e concreta.
Não acredito no sobrenatural, mas vejo a cultura e crenças como uma das maiores riquezas da humanidade! São altamente complexas e intrigantes.
Estou ansiosa para ler seu próximo texto.