sexta-feira, dezembro 24, 2010

2011, já? Mas peraí, ontem mesmo era ano 2000!

O fetiche do ano 2000 foi grande. Me lembro de imaginar “no ano 2000, terei 15 anos!”. As coisas seriam magicamente resolvidas, a tecnologia que nunca sonhamos estariam em um piscar de olhos disponíveis para nosso uso…

Algumas coisas, sim, aconteceram com maior intensidade após o ano 2000, como a escalada dos gadgets individuais, bem representados pelos palmtops, que evoluíram para os smartphones e, agora, para o iPad (que já considero item da segunda década do século). Além disso, a fotografia digital saiu das revistas de tecnologia para figurar nas mãos de quase a totalidade da população brasileira.

Quem diria que um operário chegaria à Presidência, que se reelegeria, que faria sua sucessora – e seria uma mulher! Quem diria que a internet cresceria tanto? E quem diria que haveriam sites onde as pessoas poderiam interagir, como o orkut e, mais recentemente, o facebook? (afinal, elas não poderiam simplesmente interagir na vida real?).

Mas algumas coisas não aconteceram. A cura milagrosa das doenças a partir do sequenciamento do genoma humano, por exemplo, está no rol das promessas não cumpridas. Não temos carros voadores, não temos teletransporte, não fazemos viagens a Jupiter (só em períodos de matrícula na USP). E ainda temos uma malha ferroviária ridícula para as nossas necessidades.

E na minha vida pessoal também há espaço para reflexão. Quem diria que eu faria Administração de Empresas, depois emendaria uma FUVEST e faria Ciências Biológicas na USP? Aliás, quem diria que eu um dia iria estudar na USP? Era um sonho distante, quase uma alucinação. E mais, quem diria que eu trabalharia em tantos lugares diferentes: Junior Trevisan Consultores, Central Única dos Trabalhadores, Herbário do Departamento de Botânica da USP, Prefeitura Municipal de São Paulo, Dental Family, Instituto 5 Elementos e, por fim, Instituto de Pesquisas Tecnológicas? Isso sem contar as iniciações científicas que eu iniciei e não finalizei: Laboratório de Sistemática Vegetal, com Lucia Lohmann e Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, com Rui Murrieta?

Nunca imaginei que um dia iria conhecer tantos lugares desse mundão. Era delírio imaginar fazer um mochilão pela Europa, passando por Londres, Amsterdã, Bruxelas, Paris, Barcelona, Madri, Lisboa, Tomar, Batalha, Nazaré, Fátima, Coimbra e Porto. Era ainda mais delírio imaginar que voltaria para fazer Paris, Veneza, Ferrara, Bolonha, Pádua e Florença. Também não imaginava conhecer Aruba, ir a Cancún, visitar Orlando aos 24 anos de idade – e passar o maior medo da vida no avião na viagem de volta ao Brasil.

Quem diria que eu veria in loco uma final de Libertadores da América na qual o meu time goleia o adversário por 4 a 0? Quem diria que eu veria meu time ser o único brasileiro tricampeão mundial de clubes? E quem diria que eu veria três conquistas seguidas de Campeonato Brasileiro, depois de tanto sofrer na segunda metade dos anos 90?

E quem diria que eu sofreria a maior perda da minha vida, quando minha avó, minha madrinha e minha grande companheira nos deixou de uma hora para a outra, quando pensávamos que ela estaria aqui conosco para ver a segunda década do século XXI chegar? E quem diria que, logo em seguida, meu avô, também de uma hora para a outra, não pôde continuar a nos ver crescendo?

Essa década marcou meu crescimento, minha saída da adolescência e entrada no mundo dos adultos. Mas não totalmente: ainda guardo muitos traços daquele garoto que se formou na 8ª série em 1999, gostava de Bad Religion, Silverchair, Offspring, estava começando a tocar bateria e nem imaginava o que estava por vir.

Quanta gente eu conheci, quantos lugares eu visitei, quantas brigas eu tive, quantos abraços, ganhos, perdas, choro, risadas, vitórias e derrotas.

Chego ao final da década muito satisfeito com tudo o que vivi nos últimos 10 anos. Hoje, ouvindo novamente “Anthem for the year 2000”, vejo o quão rápido isso tudo passou. As incertezas, os medos, o bug do milênio, isso tudo é passado agora. Chego a 2011 na condição de planejar meu futuro, de ver horizontes mais distantes. Carrego uma bela bagagem e uma natureza inquieta, que não me deixa acomodar e parar onde parece confortável.

Tired of lying in the sunshine
Staying home to watch the rain
You’re young and life is long
And there is time to kill today

And then one day you find
Ten years have got behind you
No one told you when to run
You missed the starting gun