terça-feira, abril 15, 2014

Meu padrinho se foi...

... e foi com ele o que restava da minha infância.

Morei com meu tio durante meia década, enquanto a casa em que minha família iria morar não ficava pronta. Essa convivência me trouxe influências que me fazem quem sou hoje. Música, artes, viagens, toda a sorte de etiquetas e comidas, pão caseiro, bacalhau, fraldinha, fettuccine, feijoada...

Meu tio me ensinou a me comportar e apreciar coisa boa. Me ensinou não apenas a patinar no gelo em Campos do Jordão ou no Shopping Eldorado. Tampouco a comer misto quente no Maksoud Plaza só pra ver como os ricos viviam. Me ensinou não somente como apreciar música clássica e ópera no Foyer do Theatro Municipal. Mas também me ensinou, pelo exemplo reverso, que tudo é passageiro, o dinheiro não é eterno, e que nem todo mundo que te rodeia é de fato seu amigo. Lições que só a maturidade me revelou.

O final da vida do meu tio, meu padrinho, foi triste. Enfizema pulmonar pelo excesso de tabaco. Problema crônico de bebida e vício em jogo. Muito diferente do que foi sua vida, repleta de aventuras, viagens, um restaurante que mantinha com os pais, boa música e tudo do bom e do melhor.

Esperava que o fim chegasse. Mas não esperava tão cedo. Não esperava hoje. Não esperava, na realidade... ia visitá-lo no feriado de 1o de Maio, já que nesta páscoa meu compromisso com a qualificação do mestrado já havia sido assumido. Esperava vê-lo, abraçá-lo e conversar com ele mais uma - ou algumas - vezes antes de pegar minhas coisas e seguir rumo a MG para seu enterro.

Lembro da casa que meu tio teve em Ubatuba. Era a felicidade seguir rumo ao litoral norte para dormir em uma edícula nos fundos de um terreno adjacente à BR - estrada que tínhamos que nos aventurar a atravessar para chegarmos à praia. Aquele calor, toda aquela gente junta, muita comida e muita diversão são o que eu lembro daqueles tempos.

Casa que meu tio perdeu nos tempos de vício em bingo.

Lembro dos domingos em família na casa do meu tio, com meu avô, meu outro tio e meus primos. Lembro da lasanha, da galinha caipira que brigávamos pra ver quem comia o coração, da "mesa das crianças" onde eu, meus irmãos e meus primos jogávamos Mico ou Mau Mau antes de servir a comida.

Meus primos, que sumiram da minha vida e que deixam um vazio que ainda não superei.

Lembro do cigarro, tão presente em toda a minha história com meu padrinho.

Lembro da primeira vez que fui ao Theatro Municipal, ver a OSESP, que meu tio me arrumou todo, de roupa social, para ver a orquestra. Fiquei com medo de cair do Foyer, mas a experiência ficou na minha cabeça. Eu devia ter uns 7 anos.

Lembro de uma vez que meu tio me levou ao Maksoud Plaza, como já mencionei lá em cima. Ele me levou lá pra ver como os ricos viviam. Ele me levou lá pra me ensinar a me comportar em ambientes chiques. Comemos um misto quente e um guaraná. Um só. Eu devia ter meus 9 anos.

Lembro quando descíamos a serra pra Santos no Trem de Prata. Comíamos o lanche de queijo e presunto e guardávamos a bananinha pra minha irmã, que gostava do doce. Lembro de ter medo quando o trem inclinava. Lembro de ter medo da locomotiva e tirar foto com ela mesmo assim quando chegamos lá.

Lembro das minhas competições de atletismo no SPFC. Ele na arquibancada. Era natal. Lembro de dividir um pequeno panetone com ele. Tem foto disso também.

Lembro de uma páscoa em especial, com meus primos. Tenho outra foto em que estamos todos com a cara pintada de coelhos, com ovos de páscoa imitando orelhas. Na escada da casa em que morávamos.

Lembro de que ele me levava ao Almanara pra comer homus. Lembro até hoje do cheiro dos charutinhos que ele comia, mas eu não queria por achar que eram feios.

Lembro de quando ele passou pimenta na minha mão para que eu não colocasse ela na boca quando tinha meu tique nervoso - que tenho até hoje, mas consigo conter quando em público.

Lembro do meu tio, meu padrinho, com muito carinho. Ainda este ano aprendi a receita do seu famoso pãozinho caseiro. Não deu tempo pra aprender a fazer bacalhau, feijoada, fraldinha e a massa de macarrão que ele fazia em casa. Também não deu tempo de aprender a fazer a galinha caipira.

Tio, não deu tempo de eu ir te visitar. Mas o que você me ensinou não se compra com dinheiro, não se aprende na escola. Você me ensinou a conviver, a apreciar a cultura, a apreciar boa música, boa comida, viagens e os prazeres da vida. Me ensinou também, da maneira mais dura possível, que os verdadeiros amigos, aqueles que nos amam de verdade, são poucos e só aparecem na adversidade.

Eu queria ter te visto na praia de novo, Tio. Descanse em paz, um pedaço de mim vai contigo. E um pedaço de ti fica em mim.