quinta-feira, setembro 01, 2016

Tive três pensamentos esses dias

É verdade que o episódio da reeleição de Dilma Rousseff trouxe consequências graves para o Brasil. É verdade que essas consequências são ecos de erros e de uma condução muitas vezes carrancuda e autoritária, estilo da agora ex-presidente. Mas muito mais do que isso, essas consequências são fruto de um processo muito antigo - muito mais antigo do que o governo do PT. Mais até que a existência do próprio PT: a falta de vocação democrática do nosso país.

Não vou - ainda - entrar no mérito dos decretos ciclistas. Entro na questão de que estamos sempre querendo derrubar alguém. Ao se observar democracias maduras no exterior, o impulso de puxar o tapete dos governantes é sempre muito contido. A disputa se dá a cada eleição, no voto. Se tenho dados para comprovar isso? Não, mas uma rápida busca no Google pode resolver este ponto. Falo aqui apenas da minha impressão. Não ouvimos muitos "Fora Obama" ou "Fora Merkel" por aí. Mas "Fora Sarney", "Fora Collor", "Fora FHC", "Fora Lula", "Fora Dilma", e agora, "Fora Temer", sempre ouvimos. Sim, há o viés da proximidade e etc. Mas quem poderia imaginar qualquer cerimônia pública (como as aberturas da Copa e Olimpíadas) sem vaias ao mandatário brasileiro, quem quer que seja? Não dá pra imaginar um cenário de respeito à instituição "Presidente da República". Somos um país que está sempre contra, sempre querendo derrubar o presidente. Este é o primeiro pensamento.

Ouvi ontem o primeiro discurso do Temer como presidente efetivo. Creio não ter sido o único a não sentir um pingo de confiança no que ele disse. Falou em pacificação do país. Pacificação para quem? Ele não consegue nem pacificar o próprio partido! Falou em previdência (como quem diz: trabalhem mais), falou em leis trabalhistas (como quem diz: negociem por conta própria com seus empregadores), falou em programas sociais (como quem diz: vocês não precisam mais disso) e, principalmente, falou em redução de gastos públicos (como quem diz: vou gastar onde eu quiser, e não onde a constituição manda hoje). São tempos sombrios estes que temos pela frente. Este foi o segundo pensamento.

Mas quero agora entrar em outro pensamento: foi um golpe? O que significa esta onda maniqueísta que vivemos? Por que as esquerdas são tão rejeitadas pelo brasileiro médio? A primeira questão, a do golpe, é ingrata. A burocracia que foi seguida foi perfeita, totalmente "by the book". Exceto no julgamento final. Está claro que manter os direitos políticos da Dilma não visa ser uma benesse a ela. Visa, sim, manter os direitos do Eduardo Cunha, o pivô de toda a crise política que vivemos. O "vingador" da antiga oposição, agora situação. Neste ponto, sim, foi um golpe. Mas as razões que levaram Dilma à cassação são igualmente ingratas. Apesar de toda a burocracia ter sido seguida, ainda não consigo entender como um crime leva um presidente ao impeachment e todos os demais não. Pelo que entendi, a prática das pedaladas é antiga e remonta a governos anteriores de longa data. Tenho dúvidas também do malefício que essas pedaladas trazem. Neste ponto, admito minha completa ignorância em termos de economia de um país. Me parece que a diferença está justamente no maniqueísmo que vivemos. Uma pedalada de esquerda é pior do que uma pedalada de direita.

Vivemos num maniqueísmo impressionante no Brasil. Quem é de esquerda rejeita toda e qualquer ideia da direita. Quem é de direita rejeita toda e qualquer ideia da esquerda. Quem é centro é, na verdade, direita. Isso quando não muda de posição conforme a opinião pública. O vilão da vez é a esquerda. Esquerda virou sinônimo de PT, que virou sinônimo de comunista. Em pleno 2016. Do outro lado, há muita - muita! - gente achando que ser de direita (que é o pop hoje) é defender ditadura, tortura, misoginia, homofobia e fim de direitos trabalhistas.

Ora, trabalhador CLT que defende o fim da CLT é um contrassenso muito grande. Gay que defende homofobia, mulher que defende misoginia, eleitor que defende ditadura... ninguém deveria defender essas ideias. Nem a direita!

A meu ver, alguns princípios deveriam ser universais e defendidos por destros e canhotos. A democracia, a igualdade entre gêneros, a liberdade de crença (ou da falta dela) e de comportamento, a proteção aos mais fracos, o combate a todos os preconceitos e a busca pela igualdade de oportunidades. A partir daí, esquerda e direita discutem a melhor forma de fazer isso. É por programas sociais do governo? É por parcerias com a iniciativa privada? É fazendo pacto com o diabo? Aí deveriam se focar as atenções. Não discutir se gays deveriam ser proibidos de casar por que segundo a interpretação de um líder religioso qualquer isso está em um livro considerado sagrado.

Mas o sistema é complexo, está quebrado e nunca esteve certo. É um sistema aberto com variáveis demais para ser modelado. Admiro os que tentam, mas repudio aqueles que procuram uma explicação para que ele se encaixe nos próprios interesses.

A única certeza? Ontem, 31/08/2016, foi um dia histórico. Como nos lembraremos disso em 50 anos? Como o Golpe de 2016? Ou como o segundo Impeachment de uma democracia jovem, porém forte?

Meu palpite: a tese do Golpe é muito boa.

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